Quase 8 mil MEIs por dia: o volume em que uma fraude passa despercebida
2.902.630 opções pelo MEI em 2025, medidas na base pública — e o que esse número explica
Em 2025, foram registradas 2.902.630 opções pelo regime de microempreendedor individual no Brasil. Isso dá, na média, cerca de 7.950 por dia — todo dia, incluindo fins de semana e feriados.
O número explica muita coisa sobre por que a fraude de abertura de CNPJ em nome de terceiro é possível, e por que ela costuma passar meses sem ser notada.
Contagem feita em 11/08/2026 sobre a base pública do Simples Nacional publicada pela Receita Federal, pela data de opção pelo MEI. É a data em que a empresa passou a ser MEI, que na maioria dos casos coincide com a abertura — mas não sempre, porque uma empresa já existente pode optar pelo regime depois.
O volume, ano a ano
| Ano | Opções pelo MEI |
|---|---|
| 2025 | 2.902.630 |
| 2024 | 1.969.568 |
| 2023 | 1.595.623 |
O crescimento não é pequeno: de 2023 para 2025, o número quase dobrou. Seja qual for a leitura econômica disso, o efeito operacional é claro — o sistema processa um volume que nenhuma conferência individual acompanharia.
Mais da metade de tudo o que abre no Brasil
O número ganha outra dimensão quando comparado com o total de aberturas. Em 2025 foram abertos 5.194.268 estabelecimentos no país, dos quais 5.063.359 eram matrizes — a contagem mais próxima de «empresas novas».
Com 2.902.630 opções pelo MEI no mesmo ano, o regime responde por cerca de 57% das empresas novas. Ou seja: a maioria do que se abre no Brasil hoje entra pela porta mais simples que existe — a mesma que dispensa reconhecimento de firma e comparecimento.
| 2025 | Quantidade |
|---|---|
| Estabelecimentos abertos | 5.194.268 |
| Destes, matrizes (≈ empresas novas) | 5.063.359 |
| Opções pelo MEI | 2.902.630 |
| Baixas registradas | 2.876.025 |
A última linha merece atenção: quase três milhões de baixas no mesmo ano. O cadastro brasileiro tem uma rotatividade alta, e isso é parte do motivo pelo qual uma inscrição a mais ou a menos não chama atenção de ninguém.
Por que o volume favorece a fraude
A inscrição como MEI foi desenhada para ser simples, e isso foi uma decisão acertada: formalizou milhões de pessoas que estavam fora de qualquer registro. Não exige reconhecimento de firma, não exige comparecimento, não exige contador. Bastam dados pessoais e alguns cliques.
A mesma porta que abre para o trabalhador autônomo abre para quem tem os dados de outra pessoa. E, num fluxo de quase oito mil inscrições por dia, uma inscrição indevida não se destaca de nada.
Some-se a isso o fato de que o titular não é avisado. Não existe, hoje, notificação automática dizendo «um CNPJ foi aberto com o seu CPF». A descoberta costuma vir por outro caminho, e tarde:
- Uma cobrança de tributo que você não reconhece.
- Um benefício negado, como o seguro-desemprego.
- Uma restrição de crédito ao tentar financiamento.
- A declaração de imposto de renda caindo em malha.
O estoque, e não só o fluxo
Os números acima são de fluxo — quantos entraram num ano. O estoque conta outra parte da história: há 17.200.391 optantes pelo MEI registrados na base, dos quais 13.457.932 são matrizes ativas.
A diferença entre os dois números, quase 3,8 milhões, é de MEIs que foram baixados, ficaram inaptos ou saíram do regime. É gente que abriu, por escolha ou não, e hoje não está mais ativa — e boa parte desse grupo descobriu a inscrição tarde.
«Opção pelo MEI» é a data em que a empresa passou a ser MEI, e não necessariamente a data de abertura: uma empresa já existente pode optar pelo regime depois. Para a maioria os dois coincidem, mas dizer «MEIs abertos» com exatidão exigiria cruzar as duas datas. Preferimos nomear o que medimos.
O que dá para fazer com esse cenário
Como não há aviso automático, a única defesa disponível hoje é a consulta periódica — feita por você, no e-CAC da Receita, que é o único lugar onde o caminho do CPF para a lista de empresas existe.
Não é uma resposta satisfatória, e vale dizer isso com todas as letras: o ônus fica com o titular, que precisa lembrar de checar. Mas é o que existe, e checar uma vez por ano é melhor que descobrir por uma cobrança.
Os termos que aparecem no caminho
- MEI
- Microempreendedor Individual. Regime simplificado criado pela Lei Complementar 123/2006.
- Opção pelo MEI
- O ato de ingressar no regime. A data da opção é o que a base pública registra.
- Simples Nacional
- O regime tributário simplificado do qual o MEI é uma modalidade. Sua base de optantes é publicada abertamente.
- Malha fiscal
- A verificação automática que cruza declarações com outras bases. Um CNPJ desconhecido no seu CPF pode aparecer por aí.
Perguntas frequentes
Quantos MEIs são abertos por dia no Brasil?
Em 2025 foram 2.902.630 opções pelo regime, o que dá cerca de 7.950 por dia na média do ano. Medição feita em 11/08/2026 sobre a base pública do Simples Nacional.
Por que é fácil abrir um MEI em nome de outra pessoa?
Porque a inscrição foi desenhada para ser simples: online, sem reconhecimento de firma, sem comparecimento e sem contador. A mesma simplicidade que formalizou milhões de pessoas abre a porta para quem tem os dados de outra.
Sou avisado se abrirem um CNPJ com o meu CPF?
Não. Não existe hoje notificação automática. A descoberta costuma vir por uma cobrança, um benefício negado ou uma restrição de crédito.
Com que frequência devo consultar?
Não há regra. Como não existe aviso automático, uma consulta anual no e-CAC já reduz muito o tempo entre a abertura indevida e a descoberta.
- Receita Federal — Dados Abertos do CNPJ e do Simples Nacional
- Lei Complementar nº 123, de 2006 — art. 18-A, o MEI